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Como conversam os saberes da arquitetura Vernacular, Vastu Shastra, Feng Shui e Neuroarquitetura dentro do ambiente?

Da história multimilenar até a alta tecnologia de hoje.

Falar sobre o ambiente construído é sempre um desafio, especialmente se levarmos em conta os muitos saberes envolvidos no seu planejamento, análise e construção dos espaços.

Aqui vou colocar para dialogar os saberes multimilenares como o Feng Shui o mais conhecido, o mais antigo de todos o Vastu Shastra, a arquitetura Vernacular e a caçula da turma, a Neuroarquitetura, trazendo com ela também o Design Biofilico que está na sua estrutura e também a Ecopsicologia. Todos esses seis conhecimentos tem formas próprias de avaliar os efeitos do ambiente sobre nós como figura central de suas existências.

Os multimilenares são compêndios de técnicas originadas por sabedoria, observação e quiçá conhecimentos que transcendem a nossa compreensão atual das leis que regem a vida material e energia nos espaços. 

Já  Neuroarquitetura, a Ecopsicologia e o Design Biofílico são resultantes de conhecimentos correlacionados como a neurociência, psicologia e biologia respectivamente.

Feng-Shui
neurociências

Começando pela Arquitetura Vernacular:

Trazer aspectos da arquitetura e decoração vernacular é tocar no contexto de um lugar com seus recurso, cultura, características geo climáticas, herança passada por tradição oral de geração para geração incluindo, claro a identidade local.

Neste assunto não posso deixar de citar o primoroso trabalho do historiador britânico Paul Oliver, que dedicou a vida a documentar construções vernaculares e também bem versou sobre muitos outros assuntos. A tecnologia de construção vernacular nos traz um legado de conhecimentos acerca de como harmonizar, melhorar e assim tornar a habitação um espaço capaz de atender as necessidades de conforto e habitabilidade para a vida prosperar.

O livro Built to meet needs (Construindo para atender necessidades) de Paul Oliver traz um rico material captado de inúmeras partes do globo, recheado de exemplos das boas praticas da construção vernacular. Lembrando que não podemos isolar esta tecnologia das outras porquê elas se permeiam ao longo dos séculos e somente como uma facilitação de estudo vamos tratá-las como separadas.

São muitos os exemplos da construção vernacular ao redor do mundo e aliás exemplos de sucesso, como obter casas frescas construídas em local de clima desértico, aproveitamento da água de chuva para abastecimento, paredes com alto poder de isolamento às intempérie, aproveitamento da luz por rebatimento, criação de micro clima, aproveitamento de materiais abundantes nos locais de construção, proteção da edificação para eventos como terremotos e tantos outros exemplos. 

A criação destes saberes aplicados na construção vernacular levaram em conta uma profunda observação do ambiente, desenvolvimento de técnicas através de erro e acerto, recursos, cultura, espiritualidade, respeito a natureza enfim um conjunto de desenvolvimentos com foco na melhor habitabilidade.

Exemplo de arquitetura vernacular

Onde o Vastu Shastra e o Feng Shui se encaixam

Neste momento não vou me adentrar nestes dois sistemas oferecidos em detalhes,  pelo Vastu Shastra e pelo Feng Shui pois o objetivo aqui é traçar uma linha que demonstre a congruência destes saberes multimilenares e suas validações e os conhecimentos atuais da  Neuroarquitetura, Ecopsicologia e Design Biofílico, com seus olhares sob a luz da ciência.

Vastu é uma palavra do idioma sânscrito que quando pronunciado com um “a” breve, significa natureza, meio ambiente ou o que circunda. Já quando pronunciado com o “a” longo, refere-se ao espaço construído.

Veja na etimologia da palavra Vastu, onde Vas é morar, a correlação com o meio ou o olhar para o que circunda ou onde se está instalado.

O Vastu Shastra pertence aos livros Shastra Vastu e Matsya Purana que por sua vez pertencem aos Vedas. Esta é a literatura mais completa e impressionante que se tem notícia mas pouco conhecida no ocidente e que deu origem as leis da física clássica de Newton, teorema de Pitágoras, sequência de Fibonacci pois estes conhecimentos já se encontravam lá e graças a visita destes personagens da historia ocidental à estes centros de estudos, como a universidade de Takshashila em Gandahar, India, e outras, os fez cientes destas pérolas do conhecimento.

Compilador dos Vedas, Rishi Sri Veda Vyasa

Também está dentro dos Vedas, o Ayurveda, mãe das medicinas, o Shastra Jyotish, tratado de astronomia e astrologia védica, além de compilar conhecimentos de física, matemática, música e tantos outros.

Este conjunto de conhecimentos denominado Vastu Shastra considera o espaço construído em relação ao universo e todas as suas relações. E a nossa relação com este espaço e a relação com Deus, pois não havia a separação entre ciência e espiritualidade que temos atualmente.

Explicando porque acredito que o Vastu seja mais antigo e originador do Feng Shui, além da idade da literatura védica, houve uma grande difusão de conhecimento através dos polos de conhecimento locais na India  para outras localidades do globo pelas universidades mais antigas do mundo como acima citado, então estes conhecimentos ultrapassaram fronteiras. Depois dessa migração os conhecimentos receberam as características, adaptação cultural de cada local. Como é o caso do Feng Shui que na China que se apresenta de uma maneira e no Tibet de outra maneira, pois receberam adaptações locais de cada cultura, usos e costumes.

O Feng Shui e o Vastu tem diferenças em sua estrutura de aplicação, porém os objetivos desta aplicação se mantém o mesmo, ou seja buscar harmonia do ser humano em seu ambiente.

O Feng Shui é datado de cinco milênios para as suas escolas clássicas, já o Vastu Shastra considerando-se o conjunto literário dos Vedas e seus corolários chamados Vedanga, passados por tradição oral e depois registrados em folhas de bananeira, podem ter centenas de milhares de anos.

Luo Pan ou bússola do Feng Shui

O que realmente nos importa aqui neste momento é trazer a ancestralidade presente nestes conhecimentos, onde não havia equipamentos de validação como os que conhecemos hoje, como é o exemplo do encefalograma, tomografia computadorizada, etc…

mas que através de sabedoria, olhar aguçado, observação sistemática da natureza e de seus princípios de funcionamento, erros e acertos, compreensão holística (holos significa o todo, na integra), trazem então soluções para um habitar seguro, confortável e próspero.

O que é a Neuroarquitetura

Num breve olhar vamos conceituar a Neuroarquitetura, que é a conciliação entre a neurociência e a arquitetura/design de interiores, ou seja os ambientes na integra ou espaços construídos, através da observação do funcionamento do sistema nervoso e nosso comportamento. Por ser multidisciplinar busca a melhoria de processo projetual se valendo de dados científicos do cérebro/comportamento para orientar o projeto e que ele possa por exemplo auxiliar na recuperação da saúde em projetos de hospitais, melhor aprendizagem em ambientes escolares, morar melhor e etc…

O sistema nervoso como um todo é o objeto de estudo da Neurociência

Vamos falar da Eco Pisicologia

A Ecopsicologia  já coloca os saberes da psicologia e meio ambiente juntos, para se obter espaços harmônicos que permitam o desenvolvimento da boa saúde. Entre a Neuroarquitetura e a Ecopsicologia, elas tem objetivos iguais mas a pratica de obtenção de dados é bastante diferente e a análise é feita cada uma sob o sua área de conhecimento.

O Design Biofilico e a Eco Psicologia tem na natureza e ser humano o seu foco de pesquisa.

E do Design Biofílico 

Já o Design Biofílico (Bio=vida Filia=amor) ou seja o estudo dos efeitos da natureza sobre o ser humano, num estudo que parte do ponto de vista biológico e claro vai para o âmbito das neurociências,  focando no bem-estar humano obtidos através de ambientes que nos coloquem as qualidades da natureza para enriquecer a nossa experiência e bem habitar.

Agora vou usar apenas alguns exemplos para estabelecermos as relações interdisciplinares entre o seis saberes e para que se possamos fazer o comparativo:

Exemplo 1– O Feng Shui nos recomenda uma posição de controle visual nos ambientes, com a justificativa de que essa posição de controle visual nos ambientes, tanto no quarto, na sala, cozinha ou escritório. Isso aplicado minimiza a surpresa, ou o susto ou ainda o sentimento de vulnerabilidade que ocorre em fração de segundos e consome muita energia, cria estresse, atrapalha a atividade. 

Na neuroarquitetura, dizemos que são situações em que podemos evitar as descargas de cortisol, decorrentes da ativação das amígdalas, ou sequestro límbico como conceituou Daniel Goleman, o mesmo que dizer que as impressões sensoriais são enviadas direto do tálamo às amídalas cerebelosas, antes de serem processadas pelo neocórtex. 

Seria o mesmo que dizer, segundo Daniel Kahneman, em seu livro Rápido e devagar, agir pelo sistema um, que é rápido, automático, e está abaixo do nível da consciência, e para que ele acione esta rapidez, é preciso mobilizar os neurotransmissores que ativam o sistema simpático (cortisol e adrenalina), no seu mecanismo de luta ou fuga para garantir a sobrevivência perante a uma situação de perigo fictício na maioria das vezes. Então concluindo, o que é recomendado a milênios pelo Feng Shui encontra base nos conhecimentos e validações da Neuroarquitetura nos dias de hoje.

Exemplo 2– A relação que o Vastu Shastra traz dos cinco elementos, (fogo, água, terra, ar e éter)*

luz do sol, circulação de ar, paisagem, a interação criativa entre o ser humano e a natureza para um habitar harmônico, hoje tão validado pelo saber do Design Biofílico, bem como Neuroarquitetura e Ecopsicologia. Ou seja o ser humano tem um vínculo atávico ou primitivo com a natureza e se sente bem na sua proximidade, desenvolvendo assim melhor saúde e reduzindo estresse, produzindo melhor e sendo mais criativo.

Exemplo 3-As recomendações sobre o cuidado e pureza que se deve guardar ao entrar na cozinha e preparar alimentos. Já que ela é a sede da preparação da nutrição através dos alimentos para o corpo, considerada fundamental pelo Vastu Shastra para a saúde. Esta é uma prática reconhecida nos dias de hoje através de protocolos de higiene universalmente aceitos, inclusive normativas criadas a partir desta validação para preparo em cozinhas de restaurantes, aviação, hospitais.

Exemplo 4– Recomendações feitas pelo Feng Shui no cuidado em manter a tampa do vaso sanitário fechada para evitar contaminação e dispersão de micro-organismos no banheiro e ambientes contíguos, evitando assim doenças e mal estar. (Aerossóis potencialmente infecciosos e que ficam a deriva no ar do ambiente)

Também esta prática é universalmente aceita dentro dos protocolos de higiene e saúde e cientificamente comprovado de acordo comentado publicado no American Journal of Infection Control, Lifting the lid on toilet plume aerosol: A literatur review with suggestion for future research – David L. Johnson, PhD Kenneth R. Mead – 2018

Exemplo 5-Na arquitetura vernacular, a preocupação com o conforto térmico, através de paredes eficientes em inércia térmica, ou mesmo sistema de ventilação para captar ar fresco e ventilar os espaços internos. Estes são apenas pequenos exemplos da conduta de planejamento e um dos pilares centrais do bem-estar e noção de conforto para o ser humano, já ativos em culturas ancestrais. A eficiência de mitigação de fatores do clima, práticas eco amigáveis, preservação de valores culturais entre tantos outros resultados benéficos.

Exemplo 6– Na neurociência temos evidências comprovadas de que formas pontiagudas acionam estressores e isso influencia as nossas respostas ao ambiente. No Feng Shui temos a observação de cuidado com formas muito retas ou ângulos retos em colunas, móveis, a energia emanada chama-se Shar Chi ou setas envenenadas que trazem mal estar, queda de rendimento e doenças. (Ref: Affective Priming by simple Geometric Shapes: Evidence from Event-related Brain Potencial- Yinan Wang and Qin Zhang)

Para concluir:

Nestes breves exemplos podemos perceber o quanto as técnicas e conhecimentos ancestrais estavam a frente de seu tempo e ainda estão atualíssimas, podemos também dizer que a ciência vem comprovando estas afirmações multimilenares com sua tecnologia vernacular, agora de modo científico. Podemos afirmar que as comprovações cientificas até demonstram uma certa dificuldade na validação destes resultados dada a complexidade de tecnologia aplicada, equipamentos e claro equipes capazes de conduzir estudos sérios relativos aos infindáveis temas sobre nossa biologia, neurologia, comportamento, etc..

Sabemos que as afirmações cientificas são como sentenças abertas, pois podem ser refutadas, confirmadas ou completadas.

Estes conhecimentos ancestrais ensinam a fortalecermos as relações com a natureza, espiritualidade, harmonia de elementos, representadas pelas forças que atuam incessantemente do átomo ao cosmo, para termos uma existência saudável e próspera em todos os sentidos.

Podemos perceber que através deste passeio rápido por milênios e olhando mais detidamente para este momento, estamos validando alguns saberes multimilenares, abrindo o nosso olhar e compreensão, entendendo melhor o ser humano que é o foco único de todos estes saberes.

A amplitude e apuro que nós temos que aplicar ao colocar estes saberes juntos é enorme pois para atingir os melhores resultados de projeto devemos usar a somatória de saberes, aliada a experiência de saber como aplicar a teoria na prática de modo sério. Todas as informações e conhecimentos que buscar devem ser fidedignos, de fonte confiável para se obter os melhores resultados.

Maitê Orsi

Diretora na Eduardo Salata Orsi & Maite Orsi

Designer de Interiores, Lighting Designer, Feng Shui, Vastu Shastra, Neuroarquitetura, Design Biofilico e Ecopsicologia 01/04/2022

Será que vamos falar do mesmo azul, o meu e o seu?

Alguma vez você já teve a curiosidade de perguntar o quão igual é uma mesma cor vista por cada um?

Bem como os efeitos emocionais que ele provoca? 

A questão é que apesar da cor parecer da superfície do objeto, verdadeiramente são frequências de luz que incidem nela e são devolvidas por sua superfície que vão sensibilizar os nossos olhos (retina) que tem receptores de intensidade luminosa, ou o claro, escuro, que nos permite identificar delimitação e contraste e no fundo do olho os cones ou receptores de cor, os receptores são três, amarelo, azul e vermelho. 

E com estes três podemos enxergar todas as cores. Lembrando que elas, as cores, são unicamente ondas eletromagnéticas de comprimento distinto de ondas.

Os nossos fotoreceptores (cones)  não são constantes de indivíduo para indivíduo. (em indivíduos de visão normal)  

As pesquisas apontam que nossa experiência com as diferentes cores dependem de inúmeros fatores como a língua que falamos, da nossa idade, gênero, nacionalidade, etnia, localização geográfica, vale adicionar as experiências emocionais que acompanharam nossa aquisição das cores que pode modificar totalmente de um individuo para outro. 

Por exemplo uma pessoa daltônica que tem problema em um ou mais cones (fotoreceptores), terá uma percepção muito diferente embora irá denominar a cor através do mesmo nome e não pelo seu resultado visual. Além de podermos atrelar o significado da cor a acontecimentos positivos ou negativos, dentro do âmbito individual da experiência.

As diferenças de idioma, idade, etnia, gênero, cultura, politica e até localização geográfica importam!

Há que se observar também que não enxergamos as cores do mesmo modo a vida toda, pois dependendo da idade, a percepção da cor se altera em razão da necessidade que temos de mais luminância pelo declínio da densidade do cristalino e menor sensibilidade da retina.

Nenhuma das cores promove iguais reações em cada um de nós, porque embora sejamos muito parecidos, somos muito diferentes  no contexto de construção e constituição dos nossos estímulos, resultando assim em seres únicos, cada um de nós! E na reação fisico/emocional provocada pela cor de igual maneira, além da memória criada pela cor em cada um.

O conjunto de memórias que criamos para o azul, por exemplo, foi criado com base nas nossas experiências que foram acumuladas e relacionadas com muitos endereços (estímulos) do nosso sistema nervoso para todo o corpo e quando acionado essas memórias, uma constituição única surge e resultado emocional igualmente único e individualizado.

Com isso, talvez a única coisa que realmente compartilhamos sobre cada cor, seja somente a sua denominação ou o nome delas, ressaltando que em comparativo de idiomas não há uma igual denominação para as cores de modo universal e de que há  línguas que não discriminam o azul do cinza ou preto, assim como tem idiomas que tem mais termos de classificação da cor do que o inglês. Por exemplo, no Chinês o verde, azul claro estão na mesma categoria que o azul escuro e preto.  

No aspecto cultural, por exemplo o luto no oriente é simbolizado pelo branco e no ocidente pelo preto.

Em questão de gênero, estudos sugerem que a mulher tem maior sensibilidade para enxergar cores.

É preciso salientar que nome é uma informação linguística, pertence ao universo das palavras, do nome das coisas, do léxico e da semântica.

E ainda tem o nome que damos a ela

O nome das cores, nós aprendemos na tenra idade, quando a nossa mãe perguntava, mostrando uma fruta ou objeto, e lá vinha a pergunta, que cor é essa?

Pelo nome o azul é azul e ponto, fazendo uma observação que até nisso, dependendo de que idioma estejamos considerando.

Também há que ser dito que uma cor tem muitos tons, no caso do azul temos centenas de tons e há tons nessa escala que desde o inicio já provocam discussão, como é o caso do azul turquesa, que de tal modo fica próximo do verde e do azul que é capaz de dividir opiniões.

Nós somos capazes de enxergar uma estreita faixa do espectro eletromagnético, lembrando que ele vai desde as ondas de rádio aos raios gama, já a luz visível que é um pequeno intervalo dentro deste conjunto espectral vai de 400 nm a 750 nm. (nm=nanômetro)

Aqui não vou entrar na especificidade dos nossos olhos, os receptores do sinal eletromagnético, dos cones e bastonetes e nem mesmo nos 120 milhões de células especializadas na detecção das cores e intensidade luminosa.

O que conhecemos e experienciamos está na razão direta da nossa percepção, reação e interpretação e ela é única para cada um de nós, só isso já seria suficiente para sustentar as diferenças e relativização da percepção da cor.

Assim não há uma realidade consensual, a realidade a partir da percepção e interpretação é única

Sob a luz da física, nosso astro rei, o sol tem seu pico de emissão luminosa mais precisamente a fotosfera  ou a sua superfície que emite luz e calor atingem 5778 kelvin (temperatura de cor da luz) onde o intervalo mais visível é de 400 a 750 nanômetros e este é exatamente o intervalo que enxergamos. 

Há que se lembrar novamente também que comprimento de onda não tem cor, pois ele é como a luz está se propagando pelo meio ou um sinal eletromagnético.

A maior presença do azul para nós são o céu e o mar

O que faz o azul ser azul é como o nosso cérebro interpreta os sinais eletromagnéticos que chegam naquele exato comprimento de onda.

Afinal, quase uma ilusão que colore o que chamamos de realidade.

Ai vem a pergunta que não quer calar:

Como poderemos provar que o azul interpretado pelo meu cérebro não é o mesmo que o seu?

Arrisco dizer que não será preciso provar, pois dadas as evidências, realmente não são dado o numero de variáveis envolvido.

Vale sempre lembrar que cor tem muitos contextos de interpretação, vamos aos dois básicos:

O universal, onde informações/reações, são agrupadas em grandes conjuntos e onde se afirma o  efeito de determinada cor sobre nosso emocional ou reações comuns associadas a ela.  

E o outro é o contexto pessoal, onde não se pode comparar um conjunto de impressões absolutamente únicas, desde a sua primeira impressão, à evolução da percepção de cada item do universo visível. 

E então, agora te passo a pergunta, o seu azul é igual ao meu ou vice versa?

Maitê Orsi

Ref:

Berit Brogaard D.M. Sci., Ph D- Why we don’t see the same colors-2020

Brogaard, B. (2009) Color in the Theory of Colors –

Jameson,KA (2007) Tetrachromatic Color Vision The Oxford Companion to Consciousness, P.Wilke, T. Blayne and A. Cleeremans. Ed. Oxford University Press

Se somos seres tão únicos, qual é o nosso estilo de ambiente?

Descubra já o seu!

Quando iniciei a minha vida profissional como designer de interiores, tinha a convicção de que queria cria ambientes personalizados e conectados com cada cliente que me procurasse.

Naquela época fui visitar em São Paulo, uma mostra importante de interiores e ao entrar em cada ambiente ouvia: ah, só podia ser o ambiente de tal profissional, veja como se reconhece o estilo e tal. Nestes momentos uma dúvida me assaltava o pensamento, como este profissional será capaz de atender aos anseios de cada cliente sendo que o estilo dele é a representação da sua própria personalidade?

Esta pergunta ficou comigo por muito tempo, embora eu praticasse exatamente o contrário, procurava identificar os aspectos mais importantes dos anseios, do estilo, da personalidade de cada integrante de um projeto para talhar sob medida a solução que criasse conexão dele com seu espaço, mesmo assim a curiosidade me acompanhava.

Tempos depois em uma entrevista sobre Design de Interiores que participei,  fui perguntada sobre qual era o meu estilo, neste momento de indagação tudo se encaixou, eu organizei as ideias e raciocínio e respondi que meu estilo era o de interpretar com a maior exatidão possível as aspirações do meu cliente e propor um projeto que fizesse sentido e criasse conexão com ele, pois ao terminar meu trabalho, o espaço será desfrutado por quem encomendou a solução e não por mim, então, qual seria o sentido de eu ter uma marca registrada que me distingua e eu repita na casa de todos?

Para entender melhor o estilo próprio, esta expressão personalizada e de individualidade, temos que olhar os cânones que temos em mãos, que são os estilos que predominam no mundo ocidental e neste período da história humana, então compilei onze estilos para que você leia atentamente e veja onde você se encaixa melhor.

Primeiro devemos conceituar os principais estilos para se ter um conhecimento e ver o que está presente em cada um deles, como ele se apresenta em linhas gerais e como nos sentimos com cada um.

Esta conceituação vai nos ajudar a avaliar onde as nossas preferências estão, elas vão começar a ser conhecidas para nós.

Numa breve lista de estilos podemos citar onze:

1-Contemporâneo e o moderno que se caracteriza pela pelas linhas retas, cores claras, muito branco e madeira, com algum toque de cor forte. Contemporâneo significa atual, recente, novo.

Já o modernismo é uma denominação do movimento representado por Mies Van der Rohe, Le Corbusier, Escola Bauhaus, Niemayer, etc. Este estilo tem regras muito próprias, como regras de proporção, valorização do vazio, formas orgânicas e geométricas, aqui a função ganha destaque.

O estilo Moderno na arquitetura nasceu em oposição ao Neoclássico que era o estilo que predominava na época, no final do século XIX e perdurou até inicio dos anos 80. Caracterizado pela simplicidade, espaços vazios, linhas retas, organicidade, proporções chamados de Modulor, sistema elaborado pelo arquiteto franco-suíço Le Corbusier, também cores claras, paleta de poucas cores com inclusão de vermelho, preto e branco. Então contemporâneo e moderno tem datação, onde contemporâneo representa o nosso tempo, aqui e agora, neste período e moderno faz parte do movimento modernista que se iniciou na Europa nos idos 1.900.

Interior no estilo contemporâneo
O contemporâneo se caracteriza por usar materiais do nosso tempo, arte e design.

2-Clássico que se caracteriza por uso de peças clássicas e opulentas, lustres de cristal, tapeçaria, adornos em dourado. O clássico praticado hoje é fortemente influenciado pelo contemporâneo. O estilo em si é muito mais estético do que funcional. A datação da idade antiga, na Grécia e depois Roma, 800 a.C-476. E este serviu de modelo para a produção do Neoclássico ou movimento Classicizante. Não é de hoje que o passado reescreve o presente.

Não podemos esquecer que o clássico no design de interiores é luxuoso e sofisticado, permite livremente peças em dourado, boiseries (molduras) e tem como referência a cultura greco-romana. No mobiliário as peças são elaboradas, com volutas, detalhes de entalhe, douração, veludo nos sofás com capitonê e cortinas pesadas.

3-Rústico ou campestre que se caracteriza por uma atmosfera de campo, predominância de uso de madeira de modo mais rústico, sem tanto acabamento, a paleta de cores é neutra, elementos naturais como tijolo aparente e pedra são frequentes. Muitas vezes a madeira se apresenta com acabamento mais rústico com pouco acabamento, o funcional sobrepõe o estético.

Estilo rústico
Aqui temos um exemplo de rústico com a presença da madeira de modo predominante. Há exemplos de rústico com maior rusticidade aplicada aos móveis.

4-Escandinavo que se caracteriza por criar ambientes aconchegantes, atmosferas leves, cores claras, predominância de design nórdico que se caracteriza por moveis muito bem construídos em madeira, por artesãos locais no mobiliário. Tudo chama ao aconchego, aliás vem dai o conceito Hygge (pronuncia-se Riulga) que visa o aconchego e conforto, a conexão social e com a natureza dentro dos ambientes com muita luz natural. 

Os materiais são táteis, gostosos de tocar, plantas naturais estão sempre presentes. A madeira e os materiais naturais como algodão, lã e pele.

Cores claras, madeira, luz natural, plantas naturais.

5-Japandi que parece um pouco com o escandinavo na simplicidade formal, funcionalidade, mas na parte de acessórios, fica mais marcado pela influência oriental, como luminárias ou lanternas orientais, portas e móveis de madeira, divisórias com vidro opaco, papel arroz e também arranjos Ikebana.

Referências de simplicidade, cores como branco, preto, vermelho são muito característicos, além de madeira clara.

6-Industrial que se caracteriza por ausência de forro, instalações aparentes, preto e cinza, estruturas metálicas. Nascido em razão de transformações de galpões industriais em moradia em Nova York, os famosos lofts com sua integração de espaços. Funcionalista e austero nos acabamentos.

observe rusticidade da parede, cimento queimado no piso, cores fortes para contraste e peças metálicas.

7-Minimalismo ou Clean que se caracteriza pelo essencial, nada fica como puramente adereço, as formas são valorizadas, poucos objetos. O estilo começou no pós guerra e a escassez  característica era clara, depois tomou um ritmo também de ser uma filosofia de consumo, buscando apenas o essencial. O clean que também é muito apreciado e se caracteriza por linguagem essencial e pouco adorno, linhas geométricas e limpas.

Tudo muito limpo, claro, organizado, linhas retas.

A oposição ao minimalismo que se caracteriza por ter-se apenas o essencial, está o maximalismo, que permite espaços abarrotados de objetos e informações visuais.

8-Tropical que se caracteriza por estampas fortes, cores marcantes, muitos elementos da natureza tropical. Mobiliário em madeira.

Estampas de folhas, de modo bastante expressivo e colorido com tema na fauna e flora.

Dar uma passada em cada estilo descrito acima para ver o que te representa mais, mas calma, precisamos falar ainda de um estilo que permite fazer um mix de muitas tendências com liberdade de expressão que é o eclético com seu próximo que é o Boho.

Observe a arte com folhas verdes e exuberante.

9- Eclético onde também dá para incluir o Boho, caracterizados pela liberdade de misturar oriente com ocidente, cores, novo e antigo. Contrastes surpreendentes, misturas inusitadas mas fazendo sentido no conjunto. 

Normalmente ouvimos o termo Boho-chic, pois a origem deste estilo veio da cultura hippie, quando o trazemos para a casa, ele recebe um tratamento mais elaborado e passa a ser Boho-Chic. Seus elementos são  dramáticos, móveis claros ou coloridos, mistura de estampas, pendentes de iluminação, cestaria, flores secas caracterizam o estilo.

Ainda colocar aqueles mais nostálgicos e que valorizam épocas passadas.

Observe as texturas, materiais naturais, peças em escala grande, fibra natural, este é um exemplo de Boho-Chic.

10-Vintage e retrô, que se caracteriza por ter peças consagradas de design no século XX e são sempre referência ao tempo passado. O vintage usa móveis do intervalo de tempo no século XX, entre as décadas de 20 e 80 que são designs consagrados produzidos nesta faixa de tempo. Já o retrô fala de estilos passados ou mesmo de um renascimento ao estilo rock and roll como sendo uma referência saudosista de um período passado..

Referências do Design.
Peças características de uma época .

E finalmente os queridinhos que incluem uma boa dose de lirismos.

11-Provençal e Romântico, agrupei ambos para citar o estilo que se desenvolveu na região francesa de Provence e pretendia trazer algo da decoração palaciana para casas pequenas e poucos recurso. Eles vieram para trazer moveis ligados ao romantismo clássico e de tempos passados.

Elegante e elaborado.

O provençal ainda é muito apreciado embora seja bastante antigo pois surgiu no final dos anos de 1.700.

Já o romântico, surgiu no período de 1800 na Europa, leve, suave, feminino. Caracterizado pelos babados, laços em tons pasteis, muito usado para quartos.

12-“Coastal” ou Praiano, é o estilo que traz a atmosfera leve e fresca da praia, nos tons de areias e conchas e é claro das cores do mar, este clima pode ser usado seja onde for. Um bom exemplo de praiano é o estilo Hampton que é o nome de uma localidade nos Estados Unidos, próxima a Nova York e que abriga lindas casas. Ele tem um mix de estilos sofisticados mas com resultado clean. De modo geral o branco e o bege predominam com a forte marca do azul ou verde, se utiliza também de boiseries, lustres de cristal e colunas. Também usa fibras naturais e muita luz natural.

Observe a influencia do clássico, as cores leves, a presença do azul. Este é o Hampton.

13- Asiático, quem aqui não se lembra do Taj Mahal, um lindo monumento da arquitetura do sul da Ásia ou mais precisamente da India, esta lista de países e seus estilos peculiares é grande e nós da parte ocidental do mundo talvez não estejamos tão familiarizados. No norte da Ásia temos o estilo Russo. Da Ásia Central e sudeste da Ásia, Oriente Médio e Extremo Oriente. As características são diversas, algumas muito ornamentadas como é o caso dos países árabes, outras mais clean, marcados por cores fortes no detalhe, como é o exemplo dos interiores japoneses e que já citei a sua apropriação de modo ocidental no Japandi. Estas culturas são riquíssimas em história e singularidades.

Cores intensas, estampas, cores são características no sul da Ásia.

Listei aqui estes treze principais estilos mais usados no momento, após uma boa análise de cada um, por exclusão você vai poder se encontrar em um deles pois esta descoberta é um processo de se auto conhecer em suas preferências e o que faz sentido para você. 

Quando escolhemos um estilo é como dizer que no teatro da vida, desejamos um tipo de cenário do ponto de vista de aparência, mas claro os ambientes tem além de aparência muitas outras funções importantes, como as funções a que deve atender, cores de contexto e predominantes,  atmosfera, conforto termo-acústico, iluminação entre tantas outras, mas tudo isto submetido ao estilo ou estilos escolhidos.

O estilo também é a forma que queremos ser vistos pelo outro, como nos apresentamos e o que queremos dizer ao mundo.

A personalidade se expressa na materialidade através do conjunto de elementos pertencentes ao estilo, em seu modo de composição em cada detalhe.

A sua casa é um palco único, lembre-se, o projeto tem como função harmonizar, organizar e dar o melhor uso ao ambiente, com os melhores recursos e materiais, mas o protagonismo e a conexão são suas!

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Maitê Orsi

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