Como conversam os saberes da arquitetura Vernacular, Vastu Shastra, Feng Shui e Neuroarquitetura dentro do ambiente?

Da história multimilenar até a alta tecnologia de hoje.

Falar sobre o ambiente construído é sempre um desafio, especialmente se levarmos em conta os muitos saberes envolvidos no seu planejamento, análise e construção dos espaços.

Aqui vou colocar para dialogar os saberes multimilenares como o Feng Shui o mais conhecido, o mais antigo de todos o Vastu Shastra, a arquitetura Vernacular e a caçula da turma, a Neuroarquitetura, trazendo com ela também o Design Biofilico que está na sua estrutura e também a Ecopsicologia. Todos esses seis conhecimentos tem formas próprias de avaliar os efeitos do ambiente sobre nós como figura central de suas existências.

Os multimilenares são compêndios de técnicas originadas por sabedoria, observação e quiçá conhecimentos que transcendem a nossa compreensão atual das leis que regem a vida material e energia nos espaços. 

Já  Neuroarquitetura, a Ecopsicologia e o Design Biofílico são resultantes de conhecimentos correlacionados como a neurociência, psicologia e biologia respectivamente.

Feng-Shui
neurociências

Começando pela Arquitetura Vernacular:

Trazer aspectos da arquitetura e decoração vernacular é tocar no contexto de um lugar com seus recurso, cultura, características geo climáticas, herança passada por tradição oral de geração para geração incluindo, claro a identidade local.

Neste assunto não posso deixar de citar o primoroso trabalho do historiador britânico Paul Oliver, que dedicou a vida a documentar construções vernaculares e também bem versou sobre muitos outros assuntos. A tecnologia de construção vernacular nos traz um legado de conhecimentos acerca de como harmonizar, melhorar e assim tornar a habitação um espaço capaz de atender as necessidades de conforto e habitabilidade para a vida prosperar.

O livro Built to meet needs (Construindo para atender necessidades) de Paul Oliver traz um rico material captado de inúmeras partes do globo, recheado de exemplos das boas praticas da construção vernacular. Lembrando que não podemos isolar esta tecnologia das outras porquê elas se permeiam ao longo dos séculos e somente como uma facilitação de estudo vamos tratá-las como separadas.

São muitos os exemplos da construção vernacular ao redor do mundo e aliás exemplos de sucesso, como obter casas frescas construídas em local de clima desértico, aproveitamento da água de chuva para abastecimento, paredes com alto poder de isolamento às intempérie, aproveitamento da luz por rebatimento, criação de micro clima, aproveitamento de materiais abundantes nos locais de construção, proteção da edificação para eventos como terremotos e tantos outros exemplos. 

A criação destes saberes aplicados na construção vernacular levaram em conta uma profunda observação do ambiente, desenvolvimento de técnicas através de erro e acerto, recursos, cultura, espiritualidade, respeito a natureza enfim um conjunto de desenvolvimentos com foco na melhor habitabilidade.

Exemplo de arquitetura vernacular

Onde o Vastu Shastra e o Feng Shui se encaixam

Neste momento não vou me adentrar nestes dois sistemas oferecidos em detalhes,  pelo Vastu Shastra e pelo Feng Shui pois o objetivo aqui é traçar uma linha que demonstre a congruência destes saberes multimilenares e suas validações e os conhecimentos atuais da  Neuroarquitetura, Ecopsicologia e Design Biofílico, com seus olhares sob a luz da ciência.

Vastu é uma palavra do idioma sânscrito que quando pronunciado com um “a” breve, significa natureza, meio ambiente ou o que circunda. Já quando pronunciado com o “a” longo, refere-se ao espaço construído.

Veja na etimologia da palavra Vastu, onde Vas é morar, a correlação com o meio ou o olhar para o que circunda ou onde se está instalado.

O Vastu Shastra pertence aos livros Shastra Vastu e Matsya Purana que por sua vez pertencem aos Vedas. Esta é a literatura mais completa e impressionante que se tem notícia mas pouco conhecida no ocidente e que deu origem as leis da física clássica de Newton, teorema de Pitágoras, sequência de Fibonacci pois estes conhecimentos já se encontravam lá e graças a visita destes personagens da historia ocidental à estes centros de estudos, como a universidade de Takshashila em Gandahar, India, e outras, os fez cientes destas pérolas do conhecimento.

Compilador dos Vedas, Rishi Sri Veda Vyasa

Também está dentro dos Vedas, o Ayurveda, mãe das medicinas, o Shastra Jyotish, tratado de astronomia e astrologia védica, além de compilar conhecimentos de física, matemática, música e tantos outros.

Este conjunto de conhecimentos denominado Vastu Shastra considera o espaço construído em relação ao universo e todas as suas relações. E a nossa relação com este espaço e a relação com Deus, pois não havia a separação entre ciência e espiritualidade que temos atualmente.

Explicando porque acredito que o Vastu seja mais antigo e originador do Feng Shui, além da idade da literatura védica, houve uma grande difusão de conhecimento através dos polos de conhecimento locais na India  para outras localidades do globo pelas universidades mais antigas do mundo como acima citado, então estes conhecimentos ultrapassaram fronteiras. Depois dessa migração os conhecimentos receberam as características, adaptação cultural de cada local. Como é o caso do Feng Shui que na China que se apresenta de uma maneira e no Tibet de outra maneira, pois receberam adaptações locais de cada cultura, usos e costumes.

O Feng Shui e o Vastu tem diferenças em sua estrutura de aplicação, porém os objetivos desta aplicação se mantém o mesmo, ou seja buscar harmonia do ser humano em seu ambiente.

O Feng Shui é datado de cinco milênios para as suas escolas clássicas, já o Vastu Shastra considerando-se o conjunto literário dos Vedas e seus corolários chamados Vedanga, passados por tradição oral e depois registrados em folhas de bananeira, podem ter centenas de milhares de anos.

Luo Pan ou bússola do Feng Shui

O que realmente nos importa aqui neste momento é trazer a ancestralidade presente nestes conhecimentos, onde não havia equipamentos de validação como os que conhecemos hoje, como é o exemplo do encefalograma, tomografia computadorizada, etc…

mas que através de sabedoria, olhar aguçado, observação sistemática da natureza e de seus princípios de funcionamento, erros e acertos, compreensão holística (holos significa o todo, na integra), trazem então soluções para um habitar seguro, confortável e próspero.

O que é a Neuroarquitetura

Num breve olhar vamos conceituar a Neuroarquitetura, que é a conciliação entre a neurociência e a arquitetura/design de interiores, ou seja os ambientes na integra ou espaços construídos, através da observação do funcionamento do sistema nervoso e nosso comportamento. Por ser multidisciplinar busca a melhoria de processo projetual se valendo de dados científicos do cérebro/comportamento para orientar o projeto e que ele possa por exemplo auxiliar na recuperação da saúde em projetos de hospitais, melhor aprendizagem em ambientes escolares, morar melhor e etc…

O sistema nervoso como um todo é o objeto de estudo da Neurociência

Vamos falar da Eco Pisicologia

A Ecopsicologia  já coloca os saberes da psicologia e meio ambiente juntos, para se obter espaços harmônicos que permitam o desenvolvimento da boa saúde. Entre a Neuroarquitetura e a Ecopsicologia, elas tem objetivos iguais mas a pratica de obtenção de dados é bastante diferente e a análise é feita cada uma sob o sua área de conhecimento.

O Design Biofilico e a Eco Psicologia tem na natureza e ser humano o seu foco de pesquisa.

E do Design Biofílico 

Já o Design Biofílico (Bio=vida Filia=amor) ou seja o estudo dos efeitos da natureza sobre o ser humano, num estudo que parte do ponto de vista biológico e claro vai para o âmbito das neurociências,  focando no bem-estar humano obtidos através de ambientes que nos coloquem as qualidades da natureza para enriquecer a nossa experiência e bem habitar.

Agora vou usar apenas alguns exemplos para estabelecermos as relações interdisciplinares entre o seis saberes e para que se possamos fazer o comparativo:

Exemplo 1– O Feng Shui nos recomenda uma posição de controle visual nos ambientes, com a justificativa de que essa posição de controle visual nos ambientes, tanto no quarto, na sala, cozinha ou escritório. Isso aplicado minimiza a surpresa, ou o susto ou ainda o sentimento de vulnerabilidade que ocorre em fração de segundos e consome muita energia, cria estresse, atrapalha a atividade. 

Na neuroarquitetura, dizemos que são situações em que podemos evitar as descargas de cortisol, decorrentes da ativação das amígdalas, ou sequestro límbico como conceituou Daniel Goleman, o mesmo que dizer que as impressões sensoriais são enviadas direto do tálamo às amídalas cerebelosas, antes de serem processadas pelo neocórtex. 

Seria o mesmo que dizer, segundo Daniel Kahneman, em seu livro Rápido e devagar, agir pelo sistema um, que é rápido, automático, e está abaixo do nível da consciência, e para que ele acione esta rapidez, é preciso mobilizar os neurotransmissores que ativam o sistema simpático (cortisol e adrenalina), no seu mecanismo de luta ou fuga para garantir a sobrevivência perante a uma situação de perigo fictício na maioria das vezes. Então concluindo, o que é recomendado a milênios pelo Feng Shui encontra base nos conhecimentos e validações da Neuroarquitetura nos dias de hoje.

Exemplo 2– A relação que o Vastu Shastra traz dos cinco elementos, (fogo, água, terra, ar e éter)*

luz do sol, circulação de ar, paisagem, a interação criativa entre o ser humano e a natureza para um habitar harmônico, hoje tão validado pelo saber do Design Biofílico, bem como Neuroarquitetura e Ecopsicologia. Ou seja o ser humano tem um vínculo atávico ou primitivo com a natureza e se sente bem na sua proximidade, desenvolvendo assim melhor saúde e reduzindo estresse, produzindo melhor e sendo mais criativo.

Exemplo 3-As recomendações sobre o cuidado e pureza que se deve guardar ao entrar na cozinha e preparar alimentos. Já que ela é a sede da preparação da nutrição através dos alimentos para o corpo, considerada fundamental pelo Vastu Shastra para a saúde. Esta é uma prática reconhecida nos dias de hoje através de protocolos de higiene universalmente aceitos, inclusive normativas criadas a partir desta validação para preparo em cozinhas de restaurantes, aviação, hospitais.

Exemplo 4– Recomendações feitas pelo Feng Shui no cuidado em manter a tampa do vaso sanitário fechada para evitar contaminação e dispersão de micro-organismos no banheiro e ambientes contíguos, evitando assim doenças e mal estar. (Aerossóis potencialmente infecciosos e que ficam a deriva no ar do ambiente)

Também esta prática é universalmente aceita dentro dos protocolos de higiene e saúde e cientificamente comprovado de acordo comentado publicado no American Journal of Infection Control, Lifting the lid on toilet plume aerosol: A literatur review with suggestion for future research – David L. Johnson, PhD Kenneth R. Mead – 2018

Exemplo 5-Na arquitetura vernacular, a preocupação com o conforto térmico, através de paredes eficientes em inércia térmica, ou mesmo sistema de ventilação para captar ar fresco e ventilar os espaços internos. Estes são apenas pequenos exemplos da conduta de planejamento e um dos pilares centrais do bem-estar e noção de conforto para o ser humano, já ativos em culturas ancestrais. A eficiência de mitigação de fatores do clima, práticas eco amigáveis, preservação de valores culturais entre tantos outros resultados benéficos.

Exemplo 6– Na neurociência temos evidências comprovadas de que formas pontiagudas acionam estressores e isso influencia as nossas respostas ao ambiente. No Feng Shui temos a observação de cuidado com formas muito retas ou ângulos retos em colunas, móveis, a energia emanada chama-se Shar Chi ou setas envenenadas que trazem mal estar, queda de rendimento e doenças. (Ref: Affective Priming by simple Geometric Shapes: Evidence from Event-related Brain Potencial- Yinan Wang and Qin Zhang)

Para concluir:

Nestes breves exemplos podemos perceber o quanto as técnicas e conhecimentos ancestrais estavam a frente de seu tempo e ainda estão atualíssimas, podemos também dizer que a ciência vem comprovando estas afirmações multimilenares com sua tecnologia vernacular, agora de modo científico. Podemos afirmar que as comprovações cientificas até demonstram uma certa dificuldade na validação destes resultados dada a complexidade de tecnologia aplicada, equipamentos e claro equipes capazes de conduzir estudos sérios relativos aos infindáveis temas sobre nossa biologia, neurologia, comportamento, etc..

Sabemos que as afirmações cientificas são como sentenças abertas, pois podem ser refutadas, confirmadas ou completadas.

Estes conhecimentos ancestrais ensinam a fortalecermos as relações com a natureza, espiritualidade, harmonia de elementos, representadas pelas forças que atuam incessantemente do átomo ao cosmo, para termos uma existência saudável e próspera em todos os sentidos.

Podemos perceber que através deste passeio rápido por milênios e olhando mais detidamente para este momento, estamos validando alguns saberes multimilenares, abrindo o nosso olhar e compreensão, entendendo melhor o ser humano que é o foco único de todos estes saberes.

A amplitude e apuro que nós temos que aplicar ao colocar estes saberes juntos é enorme pois para atingir os melhores resultados de projeto devemos usar a somatória de saberes, aliada a experiência de saber como aplicar a teoria na prática de modo sério. Todas as informações e conhecimentos que buscar devem ser fidedignos, de fonte confiável para se obter os melhores resultados.

Maitê Orsi

Diretora na Eduardo Salata Orsi & Maite Orsi

Designer de Interiores, Lighting Designer, Feng Shui, Vastu Shastra, Neuroarquitetura, Design Biofilico e Ecopsicologia 01/04/2022

Autor: alldesignrp

https://www.alldesignrp.com.br/

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